Games as Lit. 101 – Literary Analysis: The Last of Us


Olá, e seja bem-vindo ao
Games como Literatura 101”. Todas as formas de arte crescem e
se modificam com o tempo, mas mesmo que os videogames
tenham existido por pouco tempo, eles possuem eras bem distintas. Isto é por causa do predomínio dos
consoles através da história da mídia, tornando fácil a separação da mídia por
gerações, baseando-se nas diferentes capacidades tecnológicas de cada tempo.
Nós temos a era dos 8-bits, dos 16-bits, a era do 3D, e por aí vai. No final dessas
eras, geralmente temos uma ou duas excelentes obras que são efetivas
definições fundamentais para a era. Chrono Trigger é possivelmente
o exemplo mais notável, um jogo que traz as convenções
mais populares de sua era próximas à perfeição, e é uma encarnação
da era do Super Nintendo, especialmente relacionado à seu próprio
gênero, que era bem popular na época. Recentemente, essas eras dos games
tiveram diferenças mais sutis, confiando menos em seus avanços
tecnológicos para se distinguir, e mais em filosofias de design e em
tendências populares do seu tempo. Se fôssemos pegar apenas um jogo específico
que serve como obra máxima para a última geração de videogames,
provavelmente seria The Last of Us. The Last of Us foi lançado pela Naughty Dog,
criadores de Crash Bandicoot, Jak and Dexter e Uncharted, em 2013.
Foi seu primeiro game para maiores de 17 anos, eles tiveram um aumento gradual de maturidade
desde a diversão boba de Crash, e isso trouxe uma história adulta que deixou
críticos e jogadores de queixo no chão. O jogo ainda é louvado, e ele ganhou
muitos prêmios de “Jogo do Ano”. Muitos o consideram como o melhor
jogo de sua geração. E não há melhor hora para o analisarmos
do que hoje, ou, tecnicamente, algumas semanas atrás, devido aos
atrasos e tal, mas não vem ao caso, quando o “Games como Literatura 101”
faz um ano. É, já faço isso há um ano! Foi um início muito lento, mas já tenho
alguns fãs incríveis e uma audiência considerável, finalmente, então vale a pena
celebrar olhando para um dos games mais adorados dos últimos anos. Mesmo que The Last of Us se passe num cenário
pós-apocalíptico com “zumbis”, que não é nem um pouco original,
seu roteiro, personagens e apresentação o dão muito mais complexidade do que
o gênero costuma ter. Ele explora temas sobre família,
moralidade e paternidade de maneira dolorosa e conflitante.
Essa análise pretende dissecar estes temas e ajudar os telespectadores a entenderem
melhor o sentido do jogo e como ele comunica este sentido. Como sempre, SPOILERS DE PENCA! Falarei sobre o jogo inteiro, sua
história do começo ao fim, e, como ilustrarei, é uma experiência muito
mais potente quando jogada, não apenas assistida ou resumida. Além
disso, há muitas sutilezas e nuances da história que não podem ser capturadas
num resumo como o que farei, então recomendo que você o jogue
antes de assistir a essa análise. Colocarei mais um aviso aqui, porque
The Last of Us é para maiores de 17 anos, e possui linguajar adulto e violência
gráfica. Como sempre, mantenho minha apresentação acessível a todas as idades,
mas não podemos falar sobre The Last of Us sem reconhecer, discutir e mostrar
um pouco deste conteúdo. Com isso fora do caminho, vamos
mergulhar em The Last of Us. Parte 1 – Perda Se você já viu algo de The Last of Us,
provavelmente viu a abertura. A cena de abertura mostra Joel e sua
filha, Sarah, curtindo a vida em casa. Toma. O que é isso? Pro seu aniversário. Você vivia reclamando do seu relógio
quebrado… Então achei legal, sabe… Gostou? Querida, isso é… – O que?
– É bonito, mas eu… Acho que tá parado. Não tá… O que? Não, não, não, não… Ha, ha. Onde conseguiu dinheiro pra isso? Drogas. Eu vendo drogas pesadas. Ah, legal, pode ajudar com a
hipoteca então. É, só porque cê quer. Mas Sarah acorda no meio da noite
e tudo começa a dar errado. Esta sequência é excelente, nos colocando
na pele de Sarah enquanto o desastre acontece ao nosso redor. Ela realmente
captura o horror de ser uma criança sozinha numa casa escura enquanto
o mundo se desfaz ao seu redor. “Dê o fora daqui! Moça,
dê o fora daqui agora…” Hã… o que foi isso? Falarei depois sobre como o jogo usa a
perspectiva, mas por ora, mantenha em mente que o simples fato de jogarmos
como Sarah nessa sequência é muito importante. Joel é forçado a matar seu vizinho
enlouquecido por autodefesa, e seu irmão Tommy aparece para
tirá-los de lá. Vale a pena mencionar, mesmo que
seja uma nota paralela, pois não tem muito a ver com os temas ou
personagens da história, a Naughty Dog é mestre em pequenos
detalhes e nuance de animações, e isso ajuda muito na criação
da atmosfera deste jogo. Veja como Sarah anda. A maioria dos
jogos usaria um ciclo normal de animação, mas veja como ela parece sonolenta com
os movimentos. Note como você não move apenas a câmera quando está no carro,
Sarah se ajusta para olhar onde você olha. São essas coisas pequenas, que outros
jogos iriam negligenciar, mas que fazem o jogo parecer mais
real do que ele realmente é. Todo mundo parece estar ficando louco,
e Joel e Sarah escapam por um triz, mas infelizmente, tudo dá errado. Pare aí! Olhe, não estamos doentes. Tenho dois civis no perímetro externo.
Solicito ordens. – Papai, e o tio Tommy?
– Vou te deixar segura e depois buscá-lo, tá? Senhor, tem uma garotinha. Mas… Sim, senhor. Escuta, amigo, foi um inferno chegar até aqui. Só precisamos… Ah, merda. Por favor, não faça. Oh, não… Sarah! Tire a mão, bebê. Eu sei, bebê, eu sei… Escuta, eu sei que dói, bebê.
Você vai ficar bem, bebê. Fique comigo. Eu vou te levantar. Eu sei, bebê. Eu sei que dói. Vamos lá, bebê. Por favor!
Eu sei, bebê. Eu sei. Sarah… Bebê… Não faz isso comigo, bebê.
Não faz isso comigo, menina. Vamos lá…. Não, não…
Oh, não, não, não… por favor… Oh, Deus. Obviamente, nada disso é tão impactante
comigo pulando partes e narrando por cima, mas esta cena é famosa por seu impacto
emocional, e deve muito de sua força às sequências interativas que levam a ela.
Como eu disse, falaremos disso depois. Como deve ter percebido, este é um
apocalipse zumbi, mas não são zumbis como os conhecemos. É uma
infecção natural provocada pelo cogumelo Cordyceps. Isso realmente existe, pode
procurar. Ele emite esporos que, basicamente, transformam pequenos insetos
em zumbis, e o apocalipse de The Last of Us é causado por este mesmo cogumelo
causando o mesmo efeito em humanos. Zumbis típicos ou não, se você inalar
os esporos ou for mordido, você tem mais ou menos um dia até
ficar louco e se perder completamente. Corte para 20 anos depois, e muitos
sobreviventes vivem em zonas de quarentena sob lei marcial estrita. Os militares
controlam quem entra e quem sai, e se alguém for pego do lado de fora,
é examinado e morto se estiver infectado. – Temos um positivo.
– Não! – Ah, merda. Segura ela!
– Não estou infectada! – Tá errado, o teste está errado!
– Faça logo. Por favor! Olhos pra frente! Beleza, está morta. – Foda-se isso.
– Pare! Puta merda! Puta merda! Cala a boca. Você é sortudo. Isso é o que
acontece quando você se esconde num prédio condenado. Um grupo de rebeldes chamados de
“Vagalumes” vêm usando táticas de guerrilha e algo próximo a terrorismo para lutar contra
os militares, e a situação anda bem tensa. Joel é um contrabandista, junto com sua
parceira, Tess, e um serviço que deu errado os leva a encontrar Marlene,
a líder dos Vagalumes. Eles são encumbidos de levar uma garota
de 14 anos, Ellie, para fora da cidade e até um ponto de checagem dos Vagalumes.
Nenhum dos dois quer fazer isso, mas é a única maneira de sair da posição
em que se meteram depois do serviço. A princípio, Ellie é apenas um fardo,
um requerimento colocado nos ombros de Joel e Tess. Ela é só carga, Joel. Joel é resistente a qualquer relação
com ela além disso. Mas é mais do que simples desinteresse:
Joel tem medo de ficar próximo de Ellie. Ele ainda usa o relógio que Sarah o deu,
mesmo ele tendo se quebrado em algum momento nos últimos 20 anos
desde o contágio. Ele está fatigado, e fica implícito que
ele já fez coisas horríveis para sobreviver, sem mencionar a tortura e assassinato que ele
e Tess cometem um pouco antes. – Só me dê alguns dias… A única conexão que ele parece ter mantido
é com Tess. A natureza desta conexão é incerta, mas é certo que é uma parceria
mutuamente benéfica, e fica claro no começo que ele se preocupa com sua
segurança, a ponto de duvidar dela, mesmo que o jogo deixe claro que ela
pode se virar sozinha muito bem. Deixe eu adivinhar. O acordo foi pro saco,
e o cliente foi embora com nossas pílulas. Foi mais ou menos isso? O acordo rolou sem problema nenhum. Cartões de ração suficientes pra nos
mantermos por uns dois meses, fácil. Basicamente, ao início da história, a moral
de Joel é definida apenas por sobrevivência, e ele tem muito medo de perder as pessoas
próximas a ele. O resultado disso quando ele conhece Ellie é que ele evita
ficar próximo dela para não ter medo de perdê-la. Conforme estudamos o personagem e sua
relação com Ellie, veremos que, enquanto muitas histórias usam uma tragédia
como a morte de uma filha para criar simpatia com o protagonista, a morte de Sarah
é uma influência séria em Joel, de muitas maneiras importantes, e não somente no começo da história.
Mas veremos mais conforme avançamos. Ellie é um enigma, a princípio, mas ela
parece precipitada e precoce. Ela claramente viu coisas ruins, e sabe
como este mundo desesperado funciona, mas tendo apenas 14 anos e sendo um pouco
ingênua, ainda não ficou exausta ou distante, e ainda não se acostumou a matar. Ah, merda! Achei que só iríamos amarrá-los
ou algo assim. Ela assobia, comenta sobre coisas interessantes
que vê nas ruinas, e até se entusiasma sobre gnomos de jardim. Olha! Gnomos! É, esses são gnomos. Cara, eu tinha um artbook cheio desses. Sempre
achei que eram super fofinhos. Ela leva um tempo pra se afeiçoar ao
Joel e à Tess, mas ela não se segura nem evita comunicação como Joel faz. Ela
é um livro aberto. É importante sabermos o papel em que Joel
está situado, não apenas em relação à Tess ou Ellie, mas mesmo ao jogador.
Joel é o protetor, e o jogo estabelece isso bem no começo, através do uso de uma ferramenta
narrativa sobre a qual falaremos muito durante esta análise: perspectiva. A morte de Sarah na introdução é triste, sem dúvida,
mas o momento mais impactante da abertura é a sequência anterior, quando jogamos com Sarah.
É mais sutil, e você pode nem se tocar do que o jogo está construindo, mas usa a
interatividade para colocar um precedente em sua mente. Nesta cena, jogando com uma
garotinha que não pode se defender enquanto o mundo está ficando louco ao redor,
a primeira conexão entre o jogador e Joel é forjada, baseada em sua habilidade de fazer
tudo ficar bem, de nos proteger. Novamente, é sutil o suficiente para a maioria
dos jogadores nem perceberem que aconteceu, mas efetiva o papel de Joel como aquele
que irá nos proteger, e por extensão, a outros. Mais importante, protegerá Ellie. Este é um exemplo de interatividade
narrativa menor, sob a qual já falei antes. Isso acontece quando um videogame utiliza-se
da interatividade para fortalecer sua narrativa sem permitir que o jogador altere os
eventos da história. The Last of Us é um dos melhores exemplos
que vi nos últimos anos, e iremos retornar a este conceito mais
pra frente nesta análise. Este papel do protetor continua com Joel
pelo jogo inteiro. Tess parece ser a cabeça da sua relação, e mesmo que ela
possa cuidar de si mesma, o papel de Joel parece ser um de reforço. Ela dá a maior
parte das ordens. Então, quando ele é encarregado de levar Ellie, seu
papel de protetor se encaixa naturalmente. Ellie precisa de sua proteção e ele é forçado
a fazê-lo. Melhor ainda, o problema aumenta quando descobrimos que Ellie foi mordida
há três semanas e não sucumbiu à infecção. Em outras palavras, ela é imune. Mesmo
com o ceticismo de Joel, sua proteção agora se tornou muito mais importante.
O jogador, como já mencionado, já se aclimatizou com esse papel de Joel
pela sequência de abertura, e entra no mesmo papel sem hesitar, imediatamente
traçando um paralelo entre Sarah e Ellie como as pessoas que ele deve proteger,
o mesmo paralelo que faz Joel ter medo de qualquer relação com Ellie. Mas essa dinâmica de protetor de Joel para
com Ellie tem uma mudança forçada quando Tess morre. Ela é mordida, e quando
os Vagalumes no ponto de checagem são encontrados mortos, ela pede para Joel terminar
a missão e levar Ellie para os Vagalumes, e fica para trás para atrasar os militares,
como sacrifício final. Isso tem três semanas. Eu fui mordida há
uma hora, e já está pior! Isso é real, Joel! A princípio, o papel de Joel como protetor
de Ellie é reforçado. Tess é mais capaz de ser esperançosa do que Joel, e seu
pedido final o dá motivo para continuar protegendo Ellie e levando ela para onde ela
precisa ir, sem comprometer sua vontade de se manter emocionalmente distante. Joel
ainda a protege, no momento, mas, no todo, ele perdeu sua parceira. The Last of Us tem várias mecânicas focadas
em trabalhar em equipe. Às vezes, você faz pé para que Tess desça uma escada para você
continuar. Às vezes, você precisa de duas pessoas para levantar um objeto pesado.
Em outros pontos Tess furtivamente mata alvos ao mesmo tempo que você. Estas
interações simples enfatizam uma parceria, similar à de Prince of Persia: The Sands of Time.
Esta é uma relação mútua, e por mais capaz que Joel seja, perder Tess é perder alguém
igual a ele. Ellie, neste ponto, não tem experiência suficiente para entrar neste
papel e então Joel continua como protetor, mas isso não pode durar para sempre se
eles quiserem sobreviver. Estabelecido tudo isso, começaremos
uma longa viagem para encontrar os Vagalumes, com objetivos semi-episódicos que desenvolvem
os personagens e temas do jogo para chegar ao terceiro ato. No geral, The Last of Us é uma
longa jornada que se passa durante um ano, e o segundo ato nos dá pequenos pedaços
dessa jornada que são relevantes ao tema, pontuados por personagens secundários que
nos dão contexto para a relação de Joel e Ellie. Isso nos leva a Bill. Ele é o primeiro exemplo de
uma relação externa à dos personagens principais que informa a exploração que a história faz
sobre relacionamentos humanos, e os problemas que ele enfrenta são bem
específicos em relação ao ponto em que Joel e Ellie estão na história. Como dito antes, Joel tem medo
de ficar próximo de Ellie, especificamente porque tem medo de perdê-la como perdeu
Sarah. Bill é a conclusão natural desta mentalidade. Am… Ellie. – Ei, o que? Joel?
– Bill! – O que você tá fazendo?
– Bill! – Me larga!
– Dê meia volta e fique de joelhos! Ele é paranóico, socialmente inapto, e obviamente
bem solitário, mas ele está vivo. Ele fala sobre a importância de não deixar
outros te puxarem pra baixo, e vê outras pessoas como uma responsabilidade, no mínimo,
um perigo, no máximo, citando a história de como ele deixou seu parceiro para não
ter mais esse problema. Sério, você tem que levar essa menina de
volta pra onde a encontrou. Bill, não posso simplesmente
levá-la de volta. Então mande-a de volta e deixe-a
encontrar seu próprio caminho. Deixa eu te contar uma história. Era uma vez alguém com quem
eu me importava. Era um parceiro. Eu tinha que cuidar dele. E nesse mundo, esse tipo de merda só
te leva a uma coisa. Ser morto. Então sabe o que eu fiz?
Fiquei esperto. Me toquei que tem que ser só eu. – Bill, não é assim. É…
– O cacete que não. É exatamente assim. É fácil ver isso como um estereótipo, mas Bill
é apresentando de maneira mais trágica do que outros personagens similares. Muitas vezes
personagens que rejeitam companhia neste tipo de história são incríveis e sua
insistência em trabalhar sozinhos é curada pelo poder da amizade, ou algum arco
semelhante. Até o Doutor passa por isso. Bill, por outro lado, mesmo sendo competente
em sobreviver, é apresentando o tempo todo como uma figura patética, ficando quase insano
por longos períodos de isolação paranóica. Mais ainda, ele não aprende o poder da amizade,
como geralmente esperamos destes personagens. Quando encontra o corpo de seu parceiro, Frank,
com múltiplas mordidas e enforcado por uma corda para impedir a transformação, ele fica
visivelmente abalado. Ele era muito próximo de Frank, e considerando
a descoberta de Ellie mais pra frente: Tenho certeza que “seu amigo” vai sentir
falta disso aqui hoje à noite. Uhum. Pouca leitura, mas tem umas
fotos bem interessantes. Ellie, isso não é pra crianças. Uau! Como diabos ele ia andar com
esse negócio? Dá pra assumir que eles eram muito,
muito próximos. Encontrar o corpo de Frank obviamente
está o afetando, especialmente se você encontrar a nota de suicídio e dá-la
a Bill. Mesmo assim, esse pensamento está tão arraigado na cabeça dele que isto
parece apenas convencê-lo de que ele está mesmo melhor sozinho. É assim que você se sentia. Bom, vá se foder também, Frank. Maldito idiota. Ele deixou Frank porque sentiu que o medo
de perdê-lo estava o atrapalhando. Agora Frank está morto, e Bill realmente se
sente triste e confuso. Em sua mente, sua mente triste e solitária,
isso só valida suas decisões. Através de Bill, vemos o perigo que vem
com a escolha do isolamento, de abandonar os outros por medo. E como
último giro da faca em sua tragédia, ele vê estes eventos como confirmação
de que ele estava certo. Para Bill, não existe “nós”, existe apenas
ele mesmo, e esta mentalidade egoísta e covarde o levou a um relacionamento
doentio que acabou em tragédia. Neste ponto da história, Joel ainda está
resistindo qualquer relação verdadeira com Ellie. Podemos ver na maneira com que ele reage
ao amor dela pelos gnomos: Beleza, então. A maneira com que ele a ignora quando
ela faz qualquer coisa: – Vá se foder! Você me algemou!
– Eu preciso que você cale a boca. Tá bom? E a maneira com que ele cria um muro quando
ela tenta falar sobre algo difícil: Ei, olha… sobre a Tess… – Eu nem sei o que…
– É assim que isso vai funcionar. Você não menciona a Tess. Nunca. Essa última mostra a fraqueza dele. Ele prefere deixar sua dor para trás do
que lidar com ela de maneira sadia. Por isso, o exemplo de Bill é tão importante.
Neste ponto da história, Joel pode ficar igual a ele, evitando qualquer ligação
humana por medo de perdê-la, e talvez até causando a perda de tal
conexão como resultado. Enquanto Bill não está necessariamente enxergando
a tragédia de suas próprias ações, a mensagem parece chegar a Joel
muito bem. A diferença é evidente. Ele consegue conversar
com ela de maneira mais confortável, começa a trabalhar com ela como parceira, de
algumas formas, ao invés de alguém que precisa proteger, e começa a confiá-la
com mais responsabilidades. Ele fica até mais honesto sobre si mesmo,
mesmo que ainda não seja um livro aberto. Ellie está mudando também, ficando
mais confiante e madura. Ela começou surpreendentemente esperta,
mas impaciente e imprudente, reagindo emocionalmente a qualquer coisa
que a magoasse. Nota paralela: admito que geralmente me irrito
com personagens crianças que só xingam o tempo todo em filmes e jogos, mas Ellie
é uma das poucas que adoro neste quesito. Não parece que ela está tentando ser mais
adulta com isso, nem nada assim, ela só é muito precoce, tem personalidade forte
e não tem muita paciência com nada. Isso dá a ela personalidade, e nos ajuda a ver
como ela acalma a cabeça conforme progride. Em suma, a primeira parte do jogo introduz
a relação entre Joel e Ellie, e também estabelece a atitude de Joel
em relação a Ellie antes de nos dar um exemplo de como essa relação pode acabar se Joel
se recusar a aceitá-la. A próxima seção do jogo é onde
começamos a ver umas mudanças. Parte 2 – Aproximação Quando os dois perdem seu caminhão numa
emboscada de bandidos, são forçados a sair da área a pé. Neste ponto, Ellie quer
mais autonomia, mas como Joel está no papel de protetor, ele não quer saber disso. Ele aceita
sua necessidade de protegê-la e começa a vê-la como um ser humano e não só como carga,
mas ainda não a aceita totalmente. Um grande passo deste desenvolvimento acontece
quando ela salva a vida dele, e depois de uma reação imediata de pai severo: Cara… eu atirei pra valer nesse cara, né? É, atirou mesmo. Tô passando mal. Porque não ficou pra trás
como eu te falei? Ele admite que ela o salvou e a dá uma arma. O segundo exemplo de relacionamento que
The Last of Us nos dá é meu favorito: Henry e Sam. Estes dois aparecem num momento em que
Joel e Ellie estão se aproximando, mas essa relação ainda não se formou por completo.
Eles estão confortáveis um com o outro, mas não próximos de verdade, por causa dos
problemas de Joel em deixar pessoas serem importantes para ele. Henry e Sam, por outro lado, são tão próximos
quanto se espera de dois irmãos, Henry, o mais velho, protege Sam e o
treina para viver nesse mundo horrível. – Sam, o que você tá fazendo?
– Nada. – Se livre disso.
– Minha mochila tá quase vazia. – Qual é a regra sobre pegar coisas?
– Não pesa nada! A regra! Qual é? – Só pegamos o que precisamos.
– É isso aí. Agora vamos. E Sam parece admirar Henry. Parece uma relação que Joel e Ellie deveriam
ter, e neste momento em que eles começam a ficar mais próximos, Henry e Sam poderiam
ser modelos que Joel e Ellie deveriam seguir. Infelizmente, esse modelo tem suas falhas,
falhas trágicas, inclusive. Fica claro que Henry vê Sam como indefeso,
não como desrespeito, mas porque, assim como Joel, se enxerga como o protetor.
Ele tenta treinar Sam para ser um sobrevivente capaz, mas não parece querer deixá-lo
entrar nesse papel. Joel e Ellie não tem a mesma conexão emocional,
mas Joel já a trata como mais capaz e confiável. Henry vê Sam como seu dever. Infelizmente,
essa relação não é ideal. Henry se define em sua necessidade de proteger
Sam, e essa necessidade de ter certeza de que nenhum mal acontecerá com ele
rouba dele qualquer sensação de iniciativa. Perto do fim de seu capítulo, Sam conversa
com Ellie sobre medo. O Henry te mandou aqui? Não. Porque ele me mandaria? Pra ter certeza de que eu não fiz
nenhuma merda. Pff. Eu diria que todo mundo foi bem,
especialmente você. Tá tudo bem? Tá tudo bem. Beleza… Bom… Tenha uma boa noite. Como que você nunca tem medo? Quem disse que eu não tenho? Do que você tem medo? Vamos ver… Escorpiões são bem cabulosos. Ficar sozinha. Tenho medo de ficar sozinha. E você? Aquelas coisas lá fora. E se as pessoas ainda estiverem lá dentro? E se elas estão presas lá, sem controle
sobre seus corpos? Tenho medo disso acontecer comigo. Ele está sempre com medo porque ele
nunca foi ensinado a lidar com esses perigos com confiança. Henry o trata como bebê, por
isso, Sam sempre tem medo de fazer besteira, e ele nunca sentiu que pudesse se virar
sozinho. Seu medo de se tornar igual aos infectados é reflexo de seu medo maior
de não ter controle. Mesmo agora, ele não se sente em controle
de nada, e perder a si mesmo completamente é horripilante para ele. Para aumentar a tragédia, essa conversa
acontece depois que Sam é mordido, e está escondendo isso dos outros. Então,
o último golpe a qualquer iniciativa que ele podia ter tomado já foi dado. Ele vai
morrer, e, do jeito que Henry o ensinou sem querer sobre a vida em geral,
não há nada que ele possa fazer. Mas ele não foi o único a sofrer
com esse relacionamento. Quando o Sam infectado ataca Ellie no
dia seguinte, Henry é forçado a atirar nele, e agora, devido à sua completa dedicação
a proteger Sam, ele não tem mais nada, nenhuma razão de viver, nada de bom para
realizar neste mundo. Henry via a proteção de seu irmão como a única
coisa para a qual valeria a pena viver, e como resultado, quebrou o espírito de seu irmão
sem intenção, e quando forçado a matar Sam, comete suicídio. Os motivos dele são contrastados aos de Bill,
Henry se importa com Sam e fica do seu lado, ao invés de abandoná-lo, mas o medo central
que o dirige e o seu resultado são bem similares. Tudo vem do medo que eles têm de
perder alguém que amam. O “nós” de Henry era Sam, e sua fixação
doentia por mantê-lo seguro resulta numa relação insalubre que termina
em tragédia. Eles servem como contraste temático para Bill.
Durante o jogo, até agora, vimos dois tipos de relação diametricamente opostos,
ambos resultando em problemas similares e finais similares. Bill nos mostrou o perigo
da relutância de Joel em aceitar Ellie e construir uma relação com ela, Henry e Sam
nos mostram o perigo de tratá-la como uma responsabilidade ao invés de tratá-la
como parceira. Estas histórias servem como um aviso
para a relação entre Joel e Ellie. Distanciamento levaria à tragédia, mas
superproteção também. No próximo segmento, a relação dos dois
encontra uma forma saudável e funcional. Parte 3 – Apoteose Pulamos para o outono e chegamos no
próximo exemplo. Em algumas maneiras, é mais uma preparação
para o desenvolvimento de Joel e Ellie do que um exemplo completo, como os que já mencionamos,
mas vale a pena ser discutido, e contém alguns dos mais importantes
desenvolvimentos dos personagens no jogo. Joel vai até a comunidade onde se encontra
seu irmão, Tommy, em Wyoming, pois sabe que Tommy já foi um Vagalume e
pode saber onde eles estão. Eles o encontram numa usina elétrica,
tentando restaurar a energia para a comunidade, e descobrimos que Tommy se casou com
a líder do grupo. Fica claro que a relação entre Joel e Tommy
está tensa, mas eles ficam felizes em se ver. Também vemos um momento importante sobre
Joel e sobre nosso papel nessa história: Tommy oferece a Joel uma foto de Sarah. Enquanto ele olha para a foto, o jogo nos pede
para apertar um botão, e quando apertamos, ele a devolve, recusando-a. Isso mostra qual é o nosso papel nessa
história. The Last of Us nos pede para interagirmos com o jogo, mas nossa interação
se limita a apenas uma coisa, o que Joel faria. Não podemos decidir se ele
guarda ou devolve a foto, só podemos mandá-lo fazer o que ele faria. Nós movemos
a história para frente, mas não determinamos como. Este é um dos muitos exemplos de como
The Last of Us usa nossa interação, mas não entenderemos completamente o
significado desse método narrativo ou deste exemplo em particular até o final
do jogo. Você pode imaginar que iremos falar muito disso quando chegarmos lá. Descobrimos que Joel não quer que Tommy o dê
a localização dos Vagalumes, quer que ele leve Ellie lá sozinho. Ele não quer mais
ser responsável por ela. Aqui vemos os últimos vestígios do medo
de Joel de ficar próximo a Ellie. Ele está mais próximo dela, mas ainda teme
o que pode vir disso, e quer tomar conta dela e se separar dela ao mesmo tempo.
Tommy não fica feliz com a ideia e nós temos mais confirmações de que Joel
já fez coisas horríveis para sobreviver. É assim que você vai me retribuir? – Retribuir?
– Por todos esses anos em que cuidei de nós. Cuidou? É disso que você chama aquilo?
Eu só tenho pesadelos com aqueles anos. Você sobreviveu por minha causa. Não valeu a pena. Quando Joel ajuda a enfrentar um grupo de bandidos,
Tommy concorda em levá-la. No entanto, quando descobre esse plano,
Ellie rouba um cavalo e foge, levando Joel e Tommy a perseguí-la. Ellie teve vários detalhes de sua personagem
mostrados, mas em momentos como esse, nos lembramos de que ela ainda é uma criança.
Ela é forte, capaz e bem desenvolvida, mas ela também tem 14 anos e não reage às
coisas de maneira tão adulta. Quando eles a encontram, uma das cenas
mais essenciais para os dois personagens acontece: O que você quer de mim? Admita que você queria se livrar de mim
o tempo todo. – Tommy conhece essa área melhor do que…
– Foda-se… Desculpe! Eu confio nele mais do que
confio em mim mesmo! Pare com essa besteira! Do que você tem tanto medo? Que eu vou acabar igual ao Sam?
Eu não posso ser infectada! – Posso cuidar de mim mesma!
– Quantas vezes quase nos ferramos? – Bom, estamos indo bem até agora.
– E agora você vai se dar melhor ainda com o Tommy! – Eu não sou ela, sabe.
– O que? – Maria me contou sobre Sarah. Eu…
– Ellie! Você tá cruzando uma linha perigosa aí. Sinto muito sobre sua filha, Joel.
Mas eu também perdi pessoas. Você não faz a menor ideia do que é perda! Todo mundo por quem me importei
morreu ou me abandonou. Todo mundo menos você! Então não me diga que eu ficaria mais
segura com outra pessoa, porque a verdade é que eu só ficaria
mais assustada. Tem razão. Você não é minha filha, e com toda certeza
eu não sou seu pai. Aqui vemos que Ellie também tem medo.
Não medo de decepcionar alguém, como Sam, nem medo de perder alguém, como Joel,
nem medo de morrer. Seu medo é de ser abandonada, e interessante,
mesmo que ela não saiba disso neste ponto, ela está tentando não ficar igual a Joel. O último pedaço, sobre como ela ficaria
mais assustada, é essencial aqui. Se Joel a deixar, ela vai ficar menos confiante
ainda em suas relações humanas, com medo constante de perder aqueles de
quem ela se aproxima. O que é, apesar de ter motivos diferentes,
o mesmo problema que Joel tem. Por causa desta fraqueza dele vemos,
se não tiver ficado óbvio ainda, a diferença entre as ideias dos dois sobre
relacionamentos e comunicação. Joel tem medo de relacionamentos, então ele
tenta afastá-los e evita falar sobre assuntos difíceis ou pessoais, enquanto Ellie é um pouco
desesperada por eles, e tenta a todo custo para construir uma relação. E agora que ela tem
uma com Joel, ela só quer mantê-la. Nós podemos ver a transitoriedade de
tudo no mundo de The Last of Us. Da necessidade de usar restos quebrados do mundo
para criar ferramentas que vão quebrar com pouco uso, até o desprezo pela vida que vemos pelo
jogo, nada parece durar muito aqui. É fácil ver porque estes dois personagens
querem algo mais permanente. Esta conversa é cortada por bandidos, porque
mesmo num jogo tão bem escrito, você não pode perder muito tempo sem
atirar nos outros, uma falha complicada sobre a qual falaremos mais tarde, mas é uma
conversa essencial, tanto para entendermos Joel e Ellie como personagens, e para a
evolução da relação deles. É aqui que Joel toma a decisão de levar
Ellie pelo resto do caminho. Fica claro que esta decisão é resultado direto
da conversa que eles tiveram naquela casa, e é a decisão mais importante que Joel toma
no jogo até o final. Ele se entrega, decide que vale a pena
correr o risco para nutrir sua relação com Ellie, e permite que seu papel de guarda-costas
se torne um papel de figura paterna. Dando uma olhada para Tommy e sua
parte nos temas da história, seu exemplo é um pouco menos importante
do que os outros simplesmente porque ele é uma ferramenta para ajudar todo
aquele desenvolvimento de personagens, mas vale notar que ele parece ser o mais
saudável dos personagens do jogo, e seu “nós” é sua comunidade, sua família.
Fica claro que suas prioridades estão na comunidade que sua esposa lidera, e vemos
exemplos de ambos sendo mais benevolentes e gentis que outras figuras de autoridade
que vimos. – Earl?
– Sim. Porque você tá aqui? Não era
pra você voltar de manhã? Tô esperando o Houser e o resto
dos rapazes me liberarem. Ficaremos bem. Volta lá pra sua família. São só mais duas horas, eu aguento. Beleza, pegue leve. Numa inversão interessante, sua família e comunidade,
as pessoas que ele jurou defender e com quem ele está mais próximo, tem lugar mais
alto no seu “nós” do que seu irmão de sangue. Porque acha que eu faria isso por você? Não é por mim, Tommy. Isso é
pela sua própria causa. Minha causa é minha família agora. Para Tommy, “nós” são as pessoas que
dependem dele. As pessoas para quem ele tem o dever de organizar e proteger.
O fato de que ele se casou a líder dessa comunidade é simbólico da maneira com que ele
a vê não é diferente da família. De volta a Joel e Ellie, aqui é o ponto onde
sua relação é mais sadia no jogo todo. Ellie insistia em seguir Joel sempre que
possível antes, mas agora ela não liga pra isso, confiando que ele está agindo em seu interesse,
e que ele vai voltar. Quando Ellie pergunta sobre um assunto difícil,
Joel se abre um pouco, e quando fica pessoal demais, ele admite gentilmente que passou do limite,
ao invés de ser ríspido com ela como antes. Já esteve em uma destas? O que? Uma universidade? – É.
– Não, pelo menos não como estudante. – Porque não?
– Um… tive Sarah quando ainda era muito jovem. Ah… você foi casado? – Por um tempo.
– O que aconteceu? – Ok.
– Exagerei? Exagerou. Os dois aprenderam a trabalhar juntos e ter
interações sadias e significativas, e seu diálogo e cooperação
torna isso claro. Infelizmente, os Vagalumes fugiram de seu
antigo QG e foram para Salt Lake City, e quando bandidos aparecem, Joel
é ferido gravemente. Sei que estou focando mais na análise
literária básica do jogo até agora, não estamos falando tanto sobre as
técnicas interativas de narrativa do jogo, e não se preocupem, falarei mais disso
mais pra frente na análise, mas preciso notar que esta sequência
é incrivelmente bem feita. A Naughty Dog foi pioneira do design de ação
coreografada com a série Uncharted, mas aqui eles usam essa metodologia para
a entrega narrativa, e é muito eficiente. A tela distorcida e andar lento nós já vimos antes,
mas as garantias desesperadas de Ellie criam tensão, e os tropeços involutários de Joel enquanto nos
esforçamos apenas para movê-lo pra frente é uma cena dolorosa de se jogar, não só usando
apresentação audiovisual, mas trazendo nossa interatividade de maneira menor para
nos informar de como somos fracos. Ou talvez, mais precisamente falando deste
game, o quão fraco Joel é. É uma sequência excelente. Acho que estamos seguros. Joel. Joel! Ah, merda! Joel, aqui! Levanta, levanta, levanta! Você tem que me dizer o que fazer! Vai logo! Tem que levantar! Joel! E quando vemos nossos heróis
novamente, já é inverno. Parte 4 – Reversal Este capítulo começa com uma enorme
mudança de perspectiva: jogamos com Ellie. Já disse antes que a perspectiva
é a ferramenta mais poderosa do jogo quanto à narrativa interativa, e falaremos mais
sobre o significado disso mais tarde. Ellie não é tão forte ou experiente quanto
Joel, então ela não pode construir as mesmas coisas, e ela é bem menos capaz numa briga,
mas ela claramente pode se virar sozinha. Sua cena de abertura, onde você anda
por uma paisagem na neve caçando um cervo é uma das melhores cenas calmas e
serenas do jogo. De maneira geral, os momentos mais poderosos e
interessantes tendem a estar nas cenas calmas mas dentre elas, esta é uma das mais
bonitas e meditativas. Nos acostumamos a jogar com Ellie
antes que tudo fique intenso de novo. Neste ponto, encontramos David. O nome é David. Este é meu amigo James. Somos de um grupo maior. Esta sequência existe para introduzir David
e nos dar uma ideia das habilidades de combate e instintos de sobrevivência de Ellie. Ela demora
a confiar, é esperta e cuidadosa em como lida com ele. Ela cresceu bastante. …trocar com você por essa carne. Do que você precisa? Armas, munição, roupas… Remédios! Tem algum antibiótico? Seu desespero por remédios é a primeira
confirmação que temos de que Joel está vivo e confirmação de que os papéis se inverteram.
Ellie agora é a protetora, e foi forçada a se amadurecer muito durante o inverno. Infelizmente, David revela numa cena arrepiante
que os bandidos que Joel e Ellie mataram na universidade, e responsáveis pelo ferimento
de Joel, eram seu pessoal, e ele notou quem ela é. Mesmo assim, ele dá a ela os remédios e permite
que ela volte para dá-los a Joel, mas mesmo estando mais esperta, ela não
percebe que ele poderá seguí-la. Ela consegue despistá-los para longe de Joel,
mas é capturada no processo. A maior função deste segmento é dar a
Ellie mais agência em seu desenvolvimento. Até esse ponto, ela foi definida em relação
a Joel, não como uma donzela em perigo, mas definida por ele de qualquer maneira, mas
agora ela precisou agir sozinha, e suas ideias, ações e habilidades que irão
ajudá-la a sair dessa situação. Vemos que a comunidade de David é uma
composta por canibais, e quando Ellie se recusa a falar a localização de Joel,
na maneira mais Ellie de ser: O que eu vou dizer pros outros agora? Ellie. – O que?
– Diz pra eles… Ellie é a garotinha que quebrou seu
maldito dedo! Eles quase a cortam em pedaços, mas ela
usa o fato de que está infectada para impedí-los e consegue escapar. A ação volta
para Joel para enfatizar novamente que ele não é uma pessoa
particularmente legal: A garota… ela está viva? Que garota? Não sei de
garota nenhuma. Não tô mentindo! Não tô mentindo! Vai se foder, cara! Você descobriu
o que queria! Eu não te conto merda nenhuma! Tudo bem. Eu acreditei nele. Não, peraí! Ellie se esgueira pelo complexo de David
numa sequência tensa e difícil, culminando num confronto lento, calmo
e difícil com David que acaba num momento sombrio e importante para
o personagem de Ellie: Você pode tentar implorar. Vá se foder! Você acha que me conhece? Hã? Bom, deixa eu te dizer uma coisa.
Você não faz ideia do que sou capaz. – Ellie! Para, para!
– Não! Não encosta em mim! – Não!
– Tá tudo bem! Sou eu, sou eu! Olha, olha! Sou eu! Ele tentou… Ah, bebê… tá tudo bem…
tudo bem… – Joel…
– Tá tudo bem agora. Temos duas coisas importantes
para discutir aqui: Primeiro, já que é o assunto mais fácil,
não acredito que a personagem de Ellie foi enfraquecida por chorar nos braços
de Joel depois de tudo isso. Aqueles que acompanham o programa
percebem que apoio o feminismo nessa mídia, mas neste caso, Joel não a salvou, ele
apenas apareceu depois que ela se salvou. Por motivos que falarei num segundo, esta
foi uma experiência traumatizante para ela. O conforto de uma figura paterna não é
pouca coisa depois disso. É uma ação nascida de confiança e
proximidade, não uma necessidade sexista do homem ser melhor em tudo. Mais importante, devemos entender o que
acaba de acontecer a Ellie. Ela já esteve próxima da morte antes,
até se convenceu de que iria morrer depois de ser mordida, mas nunca alguém
tinha olhado nos olhos dela, montado nela e lentamente se preparou para
matá-la de maneira dolorosa e depravada. Quando ela mata David, não foi apenas por
necessidade, foi por emoção. Foi por medo, desespero e mesmo satisfação
emocional. Consegue imaginar como é assustador se tocar de que você matou um homem não
apenas porque precisou, mas porque queria? Era pra isso que Joel servia antes disso.
Como qualquer figura paterna, ele a blindava para que ela não precisasse fazer essas
coisas difíceis e depravadas, mas agora, sem ele, ela é que teve que
fazer essas coisas terríveis e tenebrosas para sua própria sobrevivência. Joel pode
até confortá-la, mas não pode retirar a responsabilidade pelo que ela fez, por
mais necessário que fosse. Isso conclui o capítulo do inverno. Antes de
continuarmos, vamos tomar um tempinho para falar sobre David e como seu conceito de
“nós” se manifesta neste jogo. Parecido com a oposição de Henry e Sam
em relação a Bill e Frank, David é oposto a Tommy. Antes desta sequência, com o grupo de Tommy,
nós vimos uma comunidade que valorizava a vida humana e a cooperação para o
bem de todos. O grupo de David, no entanto, usa humanos como comida e comanda
grupos de ataque. Tecnicamente, é o mesmo “nós” de Tommy, mas seus meios
de valorização e proteção são bem mais depravados moralmente. Aqui nós vemos não só as diferenças entre
como as pessoas definem o “nós”, mas também as diferenças de valorização
e proteção desses grupos. É uma coisa muito importante de se manter
em mente no próximo e último capítulo do jogo. Parte 5 – Prioridades O comportamento de Ellie mudou muito
e ela está mais abatida e indiferente. O jogo até mostra isso interrompendo um dos
seus típicos processos, numa cena bem legal: Ellie. – Ellie!
– Que? – A escada. Vai lá.
– Certo… Numa rima narrativa interessante,
Ellie explica que roubou algo de Tommy, e oferece a Joel a foto de Sarah. Maria me mostrou isso e eu, hãm… eu a roubei.
Espero que não se importe. Antes, você só tinha uma ação, e Joel
recusava a foto. Assim como antes, sua interação é limitada a confirmar,
com um botão, mas Joel a guarda dessa vez. É, não importa o quanto você tente, acho
que não dá pra escapar do passado. Obrigado. É sinal do crescimento de seu personagem
que ele consegue aceitá-la agora, falar sobre isso, e o jogo nos dá controle
sobre isso para enfatizar novamente que esse crescimento não é
ação nossa, é dele. Isso, claro, leva à uma das cenas
mais memoráveis do jogo: as girafas. Foi estabelecido que os animais podem carregar
a infecção mas não podem sucumbir a ela, e pôsteres nos informam que as girafas estavam no
zoológico local quando a infecção começou. Agora, como de costume, o jogo se acalma
e nos permite curtir um momento lento e belo por quanto tempo quisermos. A sequência
não termina até você sair. O simbolismo da girafa é inconsistente,
até onde minha pesquisa revelou, mas felizmente, The Last of Us traz
seu próprio simbolismo. Suponho que agora é um momento tão bom
quanto outro para falar sobre o tema de natureza. O jogo é cheio de imagens da natureza tomando
de volta as paisagens urbanas, como em muitas histórias pós-apocalípticas,
mas o toque único deste jogo em particular é que o próprio apocalipse é trazido
pela natureza. Estou falando com uma planta
de plástico. Ainda estou. É, aparentemente, dá pra fazer
isso direito. A ideia geral de The Last of Us é a natureza
tomando de volta o mundo da humanidade, mas onde muitas obras diriam que isto é
inevitável e que a humanidade é um tipo de praga sobre o mundo natural, The Last
of Us aponta as semelhanças entre os dois. Assim como a humanidade converteu
a natureza para benefício próprio, a infecção dos Cordyceps também
usa a humanidade. Assim como a humanidade é bizarra,
destrutiva e maldosa, ela também pode ser pacífica,
bela e justa. The Last of Us mostra um mundo sendo
lentamente reconquistado pela natureza, mas também reflete sobre a humanidade,
e essa comparação, essa relação entre a natureza da humanidade e a natureza do
mundo natural é o motivo da cena das girafas ser tão bela. Ela nos mostra que, mesmo
com toda a podridão que vimos até agora ainda há beleza, tanto na natureza
quanto na humanidade. O que é bom, pois é a última vez
que veremos isso. Joel e Ellie acabam quase morrendo
mais uma vez, experiência pontuada por visuais belíssimos que mostram precisamente
as prioridades de Joel nesse ponto da história, e são confundidos com bandidos e levados à
força para a base dos Vagalumes. Quando Joel acorda, Marlene está lá,
e o assegura que seu serviço está feito, e ele pode ir embora. Obviamente, Joel
tem outras preocupações e exige ver Ellie. – Me leve até ela.
– Não precisa mais se preocupar com ela. – Vamos tomar conta…
– Eu me preocupo. Me deixe vê-la. Por favor. Você não pode. Ela está sendo
preparada para cirurgia. Como assim, cirurgia? Os médicos me dizem que o Cordyceps
que cresce dentro dela sofreu alguma mutação. Por isso ela é imune. Assim que o removerem, eles vão
poder usar engenharia reversa para criar uma vacina. Uma vacina. Mas isso cresce ao redor do cérebro. Sim, cresce. – Encontre outra pessoa.
– Não tem mais ninguém. Escuta, você vai me mostrar onde… Pare. Eu entendo. Mas o que você acha que está passando agora
não é nada perto do que eu passei. Eu a conheço desde que ela nasceu. Prometi pra mãe dela que tomaria
conta dela. Então porque deixa isso acontecer? Porque isso não é sobre mim.
Nem sobre ela. Não há outra escolha aqui. É interessante notar quantos personagens,
inclusive Joel, já tentaram invalidar a dor dos outros dizendo que a sua é muito maior,
ao invés de tentar entender as dores um do outro. De qualquer maneira, Joel não
vai concordar com nada disso. E aqui estamos nós. O final deste jogo é
um pouco controverso, então certamente minha interpretação dele
vai ter seus detratores, mas depois de muita pesquisa, discussão e reflexão
estou bem confiante em minha avaliação do que o jogo está querendo dizer e do
que ele conclui, então vamos mergulhar. Não há um tempo bom para interromper isso,
mas precisamos falar sobre Marlene, porque ela é o último personagem
exemplo da história. O “nós” dela é o mais amplo de todos:
a humanidade. Seu objetivo maior é salvar a humanidade,
tanto do Cordyceps quanto de si mesma, exemplificado na tentativa dos Vagalumes
de encontrar uma cura, além de sua rebelião contra os
estabelecimentos militares. Descobrimos neste último segmento que esta
motivação é bastante inspirada pela relação próxima com a mãe de Ellie,
então mesmo a dedicação de Marlene pela humanidade como um todo é motivada
por uma relação pessoal, mas essa motivação toma precedência. Ela prometeu
que protegeria Ellie quando a mãe dela morreu, mas o objetivo de salvar a humanidade é
mais importante e ela tomou uma decisão difícil, dar a vida de Ellie para o bem da
raça humana. Depois de, novamente, usar de
tortura para descobrir o que precisa, Joel atravessa a base dos Vagalumes
aos tiros para chegar a Ellie, e quando chega, o jogo nos dá outro momento
em que precisamos fazer algo para avançar, mas não temos muita escolha sobre isso. Não! Joel pega Ellie e escapa. Vamos lá, vamos lá. Você não pode salvá-la. Mesmo se você for embora com ela,
e depois? Quanto tempo até ela ser despedaçada
por um grupo de estaladores? Isso se ela não for estuprada
e morta antes. Não é você que decide. É o que ela iria querer. E você sabe disso. Olha… Você ainda pode fazer a coisa
certa aqui. Ela não vai sentir nada. Que diabos eu tô vestindo? Fique calma… o efeito das drogas
está passando. O que aconteceu? Encontramos os Vagalumes. Acontece que tem muito mais
gente como você, Ellie. Gente que é imune. São dúzias,
na verdade. Não deu em nada. Na verdade, eles… Eles pararam de procurar
uma cura. Estou nos levando pra casa. Sinto muito. Espere! Me deixe ir! Por favor! Você só viria atrás dela. Conforme eles se aproximam da comunidade
de Tommy, o jogo troca a perspectiva pela última vez, nos colocando no papel de Ellie
pelos últimos minutos do jogo, antes desta conversa levar a
história ao final. Quando eu fui mordida, eu não tava sozinha. Minha melhor amiga estava lá. E ela foi mordida também. Não sabíamos o que fazer. Então… Ela me diz, “vamos esperar. Sabe, podemos
ser poéticas e ficar loucas juntas.” Eu ainda tô esperando a minha vez. – Ellie…
– O nome dela era Riley e ela foi a primeira a morrer. E depois foi a Tess. E depois o Sam Nada disso é culpa sua. Não, você não tá entendendo. Eu lutei por muito tempo para sobreviver. E você… Não importa como, mas você tem que
encontrar um motivo para lutar. Eu sei que não é isso que você
quer ouvir, mas é… Jure pra mim! Jure pra mim que tudo que você disse
sobre os Vagalumes é verdade. Eu juro. Tá bom. Como podem imaginar, este é um final
difícil e conflitante, como deveria ser, e para isso, a execução
não foi nada menos que magistral. Neste ponto, já fiz o melhor que pude para
deixar claras as relações e temas da história, discutindo o desenvolvimento da relação entre
Joel e Ellie, e também os exemplos dados pelos personagens secundários. Agora é hora de
juntar toda essa informação para entender o que The Last of Us tenta nos dizer
com este final. Parte 6 – Conclusão Vou falar sobre os significados e temas
do jogo antes de falar sobre como os elementos interativos os reforçam e resumir
como ele é o exemplo definitivo de sua geração de games. Então, primeiro,
porque Joel fez o que fez? Ele estava certo? E o que sua decisão de mentir
para Ellie no fim quer dizer sobre a história? Eu não vou dizer que Joel não se
importava com Ellie, ele claramente se importa, e eles estavam construindo uma relação
muito positiva. Mas no fim, The Last of Us é a história de um
homem que, mesmo sendo especialista em sobrevivência e nas habilidades necessárias
neste mundo pós-apocalíptico, é, no fim das contas, fraco. Não existem muitos videogames que podem
dizer isso sobre seus protagonistas. Acredito que o músico “Miracle of Sound
falou melhor sobre isto, eu sei que mencionei ele em outra análise,
mas deixe eu ser fanboy um pouco, em sua música baseada em The Last of Us: Duas mãos imóveis
Uma foto frágil e desbotada Eu ando na sombra da minha
metade perdida Ellie preencheu o vazio deixado
pela morte de Sarah, e ela acaba sendo uma substituta
para a filha perdida de Joel. Quando uma relação acaba, de um jeito
ou de outro, pode levar um tempo até se recuperar disso, e também pode ser
bem perigoso criar uma relação similar quando as ruínas da antiga ainda estão
o afetando. É por isso que geralmente é recomendado que esperemos um pouco
entre relações românticas. Você precisa de um pouco de tempo para
curar a dor e para construir uma nova relação que esteja livre de expectativas anteriores,
positivas ou negativas. Joel não fez isso. Pelo menos, não bem.
O jogo deixa claro que mesmo depois de 20 anos, ele ainda não conseguiu superar a morte
de sua filha muito bem. Isto é mostrado em muitos exemplos,
desde o relógio quebrado até o fato dele evitar o tópico, então
isso foi estabelecido muito bem. Quando Ellie apareceu, Joel eventualmente
fez a coisa certa e construiu uma relação com ela. O problema é que ele o fez, metaforicamente,
nas ruínas de sua relação com Sarah. Ao invés de ter uma nova relação para nutrir,
Ellie só tomou o lugar de uma antiga, uma que Joel não queria, e talvez nem fosse
psicologicamente capaz, de abrir mão. Quando confrontado com a decisão entre
potencialmente salvar o mundo ou manter essa relação, Joel escolheu fazer
tudo que pudesse para mantê-la. O ato de salvar uma garota indefesa é geralmente
visto de maneira heróica, e muitos jogadores interpretaram dessa mesma maneira,
mas neste caso, realmente não é. Joel não só agiu contra o interesse da humanidade,
ele também não fez isso por Ellie. Marlene mesmo disse que isso é o que Ellie
iria querer, e Joel sabia disso. Acredito que fica claro que, considerando o
caráter de Ellie, que se ela tivesse a oportunidade de salvar a raça humana, mesmo que fosse só
uma chance, ela daria a própria vida. Há muitos diálogos nesse jogo sobre
ela querer fazer a diferença, esperançosa de que a viagem não vai ser
em vão, ela sabe que pode fazer algo importante, e ela realmente quer fazê-lo. Para ser justo, os Vagalumes deviam ter
acordado Ellie e ter seu consentimento antes de fazer isso, mas isso ainda não muda o fato
de que Ellie teria concordado, e Joel sabe disso, por isso mentiu para ela.
Mas no fim das contas, a vontade de Ellie não importava nesta situação. Joel decidiu
baseando-se nos seus próprios desejos, não nos de Ellie e certamente não nos
da humanidade como um todo. Em outras palavras, o “nós” de Joel é ele
e Ellie. E, como é de seu caráter, ele está disposto a fazer qualquer coisa,
não importa o custo ou a moralidade, para manter isto. Além disso, há outros motivos
compreensíveis para que Joel não curta muito a ideia de se sacrificar para o
bem maior. “O bem maior!” Ele perdeu sua filha quando um soldado recebeu
ordens de sacrificar civis potencialmente infectados para manter a maioria da
população segura. Ele vivia num complexo controlado por uma
quarentena restrita e violenta pelo bem maior. Ele explica para Ellie como as zonas de quarentena
iriam se fechar para os civis e matar a todos do lado de fora para haver menos infectados,
para o qual Ellie responde, naturalmente: É meio bosta. É. A vida de Joel foi definida por leis para
o bem maior, e ele viveu a vida toda desafiando este conceito, se importando com
nada além dele mesmo e seus próximos. Combine isso com o fato de que ele não lidou
bem com a morte da filha de maneira sadia, e fica óbvio o porque dele tomar uma decisão
tão custosa para a humanidade pela sua fraqueza. Por isso a última mudança de perspectiva
para Ellie é tão importante. Quando controlamos o herói de um jogo de ação,
pode ser difícil vê-lo como qualquer coisa que não seja uma pessoa forte e capaz, digna de respeito.
Mas do ponto de vista de Ellie nessa sequência final, Joel parece patético. Acho que não te contei, mas eu
e Sarah fazíamos caminhadas como esta. Acho que… acho que você e ela seriam
ótimas amigas. Ele é um homem velho e triste,
relembrando o que perdeu, e como na vida real, isto é algo que podemos
ver mais claramente fora de sua perspectiva. Como na sequência de abertura, jogando com Sarah,
o efeito é tão sutil que podemos não ver que está ali, mas é mais fácil ver Joel como ele realmente
é olhando pelo lado de fora. O que leva a uma grande pergunta sobre
a narrativa do jogo: uma crítica notável sobre The Last of Us é
a diferença entre a jogabilidade e as cutscenes. The Last of Us, como um jogo, é sobre matar
zumbis e soldados com armas de fogo e armas artesanais. The Last of Us como história
é sobre relacionamentos e cicatrizes emocionais, e os dois não compartilham muita conexão. Isto é, na verdade, o motivo pelo qual eu disse
que The Last of Us é o jogo definitivo de sua geração. Os oito anos antes do lançamento deste jogo
viram uma ascensão enorme de jogos de ação coreografada, que contam sua história
através de cutscenes e a jogabilidade foca em ação e, às vezes, sistemas de construção de itens
de necessidade duvidosa. The Last of Us é algo como o canto do cisne de
sua geração, uma das últimas grandes obras que exemplifica muitas das tendências que
reinaram naquele período. Mas isso significa que a jogabilidade e a história
são disconectadas entre si, de certa maneira. O contexto é apropriado, então nem é um problema
de dissonância ludonarrativa que acontece, mas The Last of Us quer ser lembrado como uma
história emocional, de relacionamentos quebrados, mas quando você joga, passa a maior parte
do tempo esfaqueando zumbis. Isso é meio estranho. Mas também é completamente normal, para jogos
do seu tempo, pelo menos, e até essa mídia ter maneiras universais de
criar interações atrativas ao redor de situações sociais e batalhas emocionais, acho
difícil usar isto contra The Last of Us, especialmente porque ele usa este elemento de si
de maneiras narrativas bem interessantes. Em videogames, há uma certa dimensão em que
nos identificamos com um personagem que controlamos. Há muitas maneiras de analisar
a relação jogador-avatar, mas Joel é o tipo que descrevi em um episódio anterior
como protagonista independente. Ele é quem ele é, e nada que o jogo vai
permitir que você faça irá mudar isso. Mas isso não muda o fato de que você se
identifica com ele, necessariamente. Você se esforça para o mesmo objetivo que
ele, e a maioria dos jogos investe na percepção de que você está fazendo a coisa certa,
então tendemos a considerar nossos objetivos no jogo como nobres, e nosso avatar como justo. The Last of Us
espera isso, mas no fim deixa claro que não somos Joel, e nossas motivações não são
necessariamente as dele. Joel é Joel. Não há nada de errado com isso. É muito bom
ter um nível de propriedade numa história interativa, mas como já disse muitas vezes no programa quando
falei sobre interatividade narrativa menor, um artista com visão criativa pode usar a
interatividade para fortalecer sua história, sem deixar o jogador alterar seus eventos, e
isso não é um uso menos legítimo ou potente da interatividade do que um jogo que tem escolhas
morais e histórias ramificadas. Por isso enfatizei o fato de que você não pode
escolher o que ele faz com as fotos, e o mesmo princípio entra na jogabilidade
constantemente. O jogo nos deixa pegar carona, mas esta não
é nossa história, ela é de Joel, e neste jogo, isto não é um evento incidental
de uma narrativa linear, é intencional, e tem um enorme efeito em como vemos
o personagem e suas ações. Também é por isso que o jogo troca as
perspectivas dessa maneira. Mencionei antes como jogar com Sarah no
começo do jogo firma o papel de Joel como protetor em nossas mentes, e, de maneira parecida,
toda vez que o jogo muda a perspectiva, está enfatizando um ponto similar:
nós não somos Joel. Estamos só participando de sua história. Alguns argumentam que isto anula a força da
interatividade, mas eu vou discordar fortemente. Este jogo sabe muito bem o que é e como
utiliza nossa interação, e usa isso para seu benefício. A decisão de Joel no fim do jogo
é uma traição, não só para Ellie como para a raça humana, e porque nos identificamos tanto com nosso
personagem jogável, e especificamente por causa desta interatividade, nós somos vítimas
dessa traição também. Por fim, The Last of Us é um jogo sobre
relacionamentos, sobre a importância de entender quem é o seu “nós” e o que está disposto a fazer
por eles. Talvez até mais importante, entender o que eles iriam querer de você. Com o final deixado em aberto como é, é difícil
ter certeza de que Ellie acreditou em Joel e o que vai acontecer depois, mas acho seguro
dizer que a relação se tencionou. Violações de confiança fazem isso. No fim, não
temos uma resolução, nenhuma confirmação de que Joel estava certo ou errado ou como Ellie
irá tratá-lo no futuro. Este jogo não é sobre isso. Não é sobre o mundo, não quer saber se Joel e Ellie
vão sobreviver depois, não é sobre nada disso, é sobre o relacionamento deles. Somos deixados
com a mesma pergunta que Ellie e Joel irão se perguntar pelo resto da vida: essa relação vai verdadeiramente,
um dia, se recuperar disso? Assim concluo minha análise de The Last of Us.
Espero que tenha sido informativa, e que tenha te ajudado a entender e apreciar
melhor este jogo excelente. Se quiser ouvir mais de mim, clique no botão
para se inscrever, e siga “Games as Literature” no Facebook e no Twitter, e se realmente gostar
do que vê no canal, por favor, considere apoiar o programa no Patreon.
O link também está na descrição. Devido tanto ao trabalho que tive fazendo esta
análise, e algumas mudanças grandes em minha vida pessoal, “Games como Literatura 101” vai dar uma pausa semana
que vem, mas depois disso, voltaremos com um episódio sobre como os elementos lúdicos
e narrativos de um jogo podem ficar em completa harmonia. Mês que vem, na “Análise Literária”, vamos
dar uma olhada num jogo que questiona a natureza da narrativa e a relação entre
o jogador e o narrador. Então, até semana que vem, ou a semana
depois dessa, digo. Classe dispensada. Tradução em português brasileiro:
José Renato Fernandes Dito isto, “Cidadão Kane” é uma comparação
infeliz. “Cidadão Kane” foi o primeiro filme a utilizar a mídia de maneira única e bela;
The Last of Us usa, refina e brinca com convenções já estabelecidas; ele não é inovador,
só é muito, muito bom.

100 Replies to “Games as Lit. 101 – Literary Analysis: The Last of Us

  1. No one cares about kids who swear in the apocalypse. I think the cussin makes a lot of sense if we assume that she is like any kid that emulates the world they live in.

  2. Okay… Who else agrees here with Joel saving Ellie. I'm not saying it's the "right thing", I'm saying that if I were in Joel's shoes, I'd deem the rest of humanity to extinction just to save Ellie…

  3. 13:43

    The biggest problem with The Last of Us is that it never reinforces the emotional connection between Joel and Ellie through the gameplay. They should've made Ellie an escort quest but that would be hard to make engaging so the solution, they just removed her presence from the gameplay entirely.

  4. I love how well this analysis explains that Joel is his own character and points out how many times it's established throughout the game.

    The writers knew that many players were going to disagree with Joel's choice at the end. It wasn't the choice I would've made, but by the end of the game I had spent so much time with this character that I knew exactly what choice Joel would make.

    Giving the player a choice at the end would've completely betrayed everything that came before.

  5. Mister Games as Lit, I'm only 20 minutes into this video and it's absolutely BRILLIANT. Totally subscribing!! 🙂

  6. so excited for part 2! the story of this game is amazing, but the gameplay bores me after a short while. hopefully the continuation will not suffer like that

  7. i think one thing that is very important that wasn't mentioned here was the face that Sarah was killed by a human and you see a lot of human brutality in the game e.g David and even some seemingly unimportant side characters.

    he isn't saving humanity as it is now. He is looking at it from a perspective of how it is then. The fact that a lot of the time you are asking that question typical of this genre of "who is the real enemy? humans or zombies" leads to a stronger understanding of joels decision at the end.

    thats my thoughts anyway

  8. While I don't necessarily think Joel did a right thing…well…that depends on perspective. He is definitely not hero, not a villain either, he is just human being. I can relate to his decision completely, hell, I'm not even sure what I would've done in his place at that exact moment. It's doesn't make his decision better or worse and that's the point. And Joel at this point has seen how terrifying humans can be, I'm sure he doesn't even think that sacrificing Ellie is greater good because he doesn't think that humans deserve saving. Ellie is greater good for him, the best thing that happened to him in years and he couldn't cope with the fact that little girl will die and completely give away her future in that operating table for humanity that doesn't deserve her sacrifice.

  9. Your tie is dope, the content is great, but your delivery is boring and the video is too long. Still, thanks for the analysis.

  10. You assume of course the fireflies were competant and weren't just fringe crazies willing to try anything at this point, no matter how low the odds. I wouldn't sacrifice anyone to that either. And Ellie is still a child, not old enough to make her own choices about living and dying. Maybe after she's older and lived a bit, she can choose herself.

  11. Really good analysis, and officially subbing! I'm hoping you'll do another analysis for Part II of TLOU when it releases, but only time will tell.

  12. I disagree about the gameplay part. I think protecting Ellie yourself really does develop the characters almost more than the cutscenes. The game is the perfect balance of cutscenes and gameplay to develop its story

  13. With Sam- I don't think that scene with Sam expressing his fears is because of him being babied (though I do agree with that point), but rather he is expressing hope because knows he's about to turn and is scared to die. It's like people finding comfort in the idea of an afterlife. I think at 24:47, his question, "What if the people are still inside" shows a naive hope that he has still unlike the rest of the people in the world. It's the innocent world view of a child, one that still persists even in a post-apocalyptic society, and maybe that is a result of Henry's overprotective nature- one that allowed him to be a kid instead of a seasoned survivalist. He can still hope for a fairy tale ending.

  14. Excellent video bro and I agree with a vast majority of your conclusions…. except one, the end of course. Firstly, I was shocked you left out the part where he finally gives her a gun and allows her to help, thus graduating the relationship from protector and vulnerable status to partnership. It is the first time he shows trust in here and a major part of the storytelling in the game.

    Now, the end. I disagree with the strained relationship conclusion that you came to and only because Ellie is damn near just as reliant on this relationship as Joel is. Yes, she would have given her life to POTENTIALLY save mankind but it has been established multiple times through out the game that she too is afraid of ending up alone. All the people she cared about her died or abandoned her; her mom died, as did Riley, Marlene shipped her to Joel and Tess, Sam died… you get the picture. So, when Ellie is is telling him the reasoning for which she was willing to die to save mankind — waiting for her turn to go like her friend Riley — it is a last ditch effort to get Joel to tell her the truth, which he declines. After that happens, that lie now becomes her truth, period. Her relationship with Joel now takes precedence over everything else, even over the blurred lines of fact or fiction.

  15. There's an interesting link between this story and the film "Interstellar," in terms of choosing a human relationship versus choosing to save the human race.

  16. Be careful being suportive of feminist bud. They ain't going to be suportive of you. Take one swim through the family court system and your prospective changes.

  17. I enjoy your reviews man, but please do me a favor and organize your game shelf. I hope it's at least alphabetized since its not system(etized)? lol messing with my ocd

  18. I think the gameplay and story is perfectly matched in the last of us, and that's why it's so effecting. If you wouldn't have the harsh and disturbing violence as well as the slow gameplay moments the story wouldn't hit as hard.
    Good analysis of the game but I'm not on the same page as you when it comes to gameplay. It's one of the few games that marry gameplay and story in an effective way. And that's why it's the best game of last generation for people. For me it's number two after the amazing Journey, which really innovated in other areas and had a cohesive non-speaking story. Journey, The last of us and Shadow of the colossus are three games that excel at everything, they have cohesive story and gameplay and everything. And Naughty dog managed to pull it through with a classic storytelling game, which is a great feat of itself.

  19. I just Recorded and played the Entire Game Yesterday from the Remastered Version on PS4 and man dude it was gooood

  20. Was a good analysis up until 42:00 , then you just completely lost my interest and I don't think i'll ever be able to watch you again. There was no reason to inject politics into this unless it was to virtue signal.

  21. From what I can tell this video is about a year old, and I just stumbled across it while looking for a let's play of a different game. This is the best video I've seen on this subject. You've earned my subscription.

  22. I had the same thoughts with the fact that you mentioned Joel seems almost 'sad' and 'pathetic' in his character at the end, which ultimately comes to the fact that he hasn't dealt healthily with Sarah's death, This what I think will happen in Part 2 with the focus on the story, the fact that "Ellie is not Sarah" and Joel will have to come to terms with that fact.

  23. Joel made a decision in the heat of the moment, yes, but it was the right decision. I don't think it was because he was a sad, lonely man. I think what really made me agree with Joel's decision is they never took the time to ask Ellie. Marlene automatically assumed, and she probably did that because it was the easier choice; she was probably 90% sure Ellie would agree to the procedure, but she was terrified if Ellie would say no. Then she would literally have to murder this girl, as opposed to sacrificing her for the greater good. Marlene made the easy choice. Joel made the hard one. He knew his choice would ultimately doom humanity's last chance for a cure possibly, but at the end of the day it wasn't Joel's decision or Marlene's decision. It was Ellie's decision, and that's what makes them both villains. Neither one of them gave Ellie the chance to make that decision. Yes, Ellie might've made allusions to survivor's guilt, but at the end of the day you ask for that permission, if you want to be absolved of guilt. I lost all respect for Marlene the moment she started begging for her life; she became the biggest hypocrite in my eyes. How could she say that a girl should sacrifice her life but she wasn't willing to sacrifice hers? It ultimately showed me that even though Joel is selfish, Marlene was worse.

  24. If i remember correctly, you can find some notes in the labs stating that other immune people did existed and their sacrifice didn't chage anything. But i'm sure that most of the players didn't conserned themselfes with finding or reading notes when there is Ellie on the table. So Joel didn't lied about most of things, he only lied about them stoped seeking the cure.

  25. The one bit of plot that irked me was the Fireflies' motivation in directly jumping to cutting the only (known) immune person's brain out instead of studying her for a while and collecting data as well as…y'know….waiting until Joel fucks off before prepping the autopsy table.

  26. you're projecting your values of humanity onto joel. he has lost faith in humanity and "the greater good". survival has become his morality, and why would he care more about humanity than he does about a single person? just as the player cannot dictate what decisions he makes, neither can other people's morals dictate them. yes he is scarred, and yes he personally refuses to let ellie die, but to him, what is best for ellie is for her to be alive. his decision at the end is equally selfish and for ellie's best interests.
    ellie is not a replacement for his daughter, as he talks about them as distinctly separate people, not comparing or conflating them but saying they would have gotten along. no one could ever replace his daughter, as that trauma will never leave him, and he will never forget her or the place she had in his heart. ellie might take her place, or rather, her role, but never replace her, and joel has learned to deal with the fear of that happening.
    at the end, ellie may have lost trust in joel's honesty, but her "ok" denotes her complete trust in his intentions. otherwise she would have said "fine" instead. joel isn't weak, he will not hesitate to make dark decisions others would pale at, and yet retains his own sense of morality and caring. he has decided to make sure ellie survives, and nothing, not other people's morals, no obligation to honesty, not the even the survival of humanity will deter him from his conviction. ellie doesn't need someone to empower her ego or sense of righteousness, she needs a father who will teach her how to survive.
    we cannot frame the world of the last of us with the values and morality of our own world, only compare them. as the part 2 reveal proclaims, in that world, joel is the embodiment of goodness and mercy. but this is only my opinion and interpretation, i'm not so proud as to say "this is how it is"

  27. you can't trust the fireflies, they get an inmune person and the first thing they think of is "let's kill her", it's like they didn't even try to think of an alternative.

  28. hey game professor I was wondering this is a horror game, have you done games as lit. on dead space I can't find it on your channel

  29. As a writer so glad you provide a medium to say stories move games too. I sought an analysis for this game cause i have my own similar tale i'm researching.
    Shared.

  30. 47:30 I also interpreted the giraffes leaving as a symbol of Ellie choosing to leave her childhood behind. She’s mature now and she’s willing to sacrifice herself to make things right. In the firefly hospital when you see the giraffe it’s a symbol of Joel brining Ellie back as his daughter. It displays how Joel refuses to let her grow up.

  31. 54:44 Joel says he struggled with surviving but says you always find something to fight for… Then he reaches to his wrist and touches the watch Sarah gave him… Ugh my heart 🙁

  32. Its 2 years late, but I want to comment on the side of Joel. What are the chances of successfully creating a vaccine? In this post apocalyptic world… you can seriously not say that everything around you is sterile? Or safe in terms of other diseases that could hit you. Yeah sure, you can bandage w.e cuts you may received, but you will have to find the cleanest bandage you can find, quite literally if you are away from the quarantine zone. And even then, every person in that zone dont look clean and healthy. It seems a random common disease could hit them any time soon.

    And as you said yourself, Ellie is 14, not an adult. Many people regret decisions later on in life and look at all the best possibilities they couldve done instead and reason just why. Both negative and positive. Can we really just trust the "doctors" the fireflies have? Were they even certified doctors before the apocalypse hit? How will they reproduce more vaccines? Who will they give it to? Tommy is rebuilding society back based on their community we all saw, so why not rebuild it back with Tommy? A vaccine would be great… but what are their chances of success? Joel acted selfish on his part, I agree. But he may have just saved Ellie from a failure. Marlene and the group don't look so… confident… they're acting out with no common sense and seem to have no plan. What truly makes you think they can INSTANTLY find a cure, when we don't have a cure for cancer ourselves?..

  33. Great video and great work, thank you so much for doing all this research.
    It makes video games and storytelling so much compelling 😀

  34. Five years after this games release and I am still thinking about its literary worth, symbolism, and deeper meaning. It truly is one of the greatest games of its generation as you yourself put it. However, more importantly it is one of the greatest stories ever written, and a fact that I have been reminiscing about lately more and more on the daily. The world revolves around stories, and the earliest kinds of stories were cave drawings on walls before literature and the written word was even invented, and since then has evolved to take different shapes and forms. Through word of mouth, and then later as actual books, after this developing into movies, and currently stories in their present form often take the form of playable interactive video games. A pinnacle of achievement, where you are not simply there present to witness such a story, but take the time to be invested in it and the world that unfolds around it.

    And with any great story, (as english classes often teach us nowadays) from the works of Shakespeare, to F. Scott Fitzgerald's "The Great Gatsby" the events that transpire throughout them can be interpreted in a myriad of ways. Personally I take issue with the way you have interpreted The Last of Us, specifically its ending, and the role of Joel as a character. I will give credit where credit is due, for example your analysis of the function of Bill was quite compelling, but I still want to describe my take on The Last of Us and how I believe it should come across.

    Throughout your video you often describe Joel as a "protector" citing the first instance where we meet Joel within the game (and not a cutscene) when he stands between us / Sarah / the player, and danger. But this is about as far as you go and I was actually a little bit disappointed for such a lengthy analysis (albeit for a lengthy game) it seemed as though you neglected one of the two main characters who I would argue is actually the more important one. Especially when you consider The Last of Us 2's impending release, which is quite obviously a game that will decide to center around Ellie. The Last of Us 1 is the story about Joel, who he is and what he represents as a character. It just so happens that Ellie is a major factor in determining who Joel actually is, his identity, and how he grows throughout the game. But at the end of the day the focal point of the story is Joel, as evidenced by the fact that for most of the game we play within his shoes, not Ellie's.

    (Though this video was made in 2015, well before any hint [aside from rumor] that The Last of Us 2 was in production, so I suppose I can let that slide).

    Labeling Joel simply as a "protector" and then constantly referring to him as not much more than a "protector" throughout most of the rest of the story (until the climactic ending) provides a disservice not only to the character, but the writers of the game itself. Saying "Tess seems to be the brains of the relationship" almost implies that Joel is not much more than muscle, when in fact as demonstrated through the rest of the game Joel is depicted as a completely competent individual on his own. Not typically one prone to rush into dangerous situations, or make brash decisions, and when he is in a pinch he relies just as much if not more on wit, and adaptability, than on muscle or brute force. Joel being a protector is simply a primary quality or trait that resides within his character, which is a result of his aversion to loss and pain. Joel is a survivor, and has honed every quality of his being to fit this purpose and this role. From his physical capabilities, to the emotional walls that he builds around himself, and his mental state of how he approaches the world.

    This holds much more meaning when considering the context of the world Joel exists in, a post-apocalyptic one which I notice you did not focus too much on. I'm assuming because later in the video you make a distinction between The Last of Us as a game, and the Last of Us as a story. But this again I feel is a disservice to the writers of the game, because you sum it up to "A game about killing zombies and soldiers with guns and cobbled together weaponry". Making this distinction is about as blind as the stereotype of "playing too much video games vs. being studious and a good student". Video games are the medium that stories like The Last of Us are able transcend the symbolism and deeper meaning that I mentioned is so important. You cannot judge the story elements and gameplay elements against each other as separate entities, because so many of the important story elements reside within the actual gameplay itself, outside of those built in cutscenes. And like it or not the setting of the Last of Us, (a post-apocalyptic world), alongside the gameplay itself is the only way we would have ever received a story as impactful as The Last of Us. If it were made into anything else, a book or movie, I do not believe it would have been received the same way because you simply cannot convey the same emotions through these other mediums.

    Finally the ending, the journey that Joel and Ellie go through is the foundation of their relationship, it is completely real. Their relationship is forged on their trip to cross the country from Boston to Utah, heated by the fires of adversity and the challenges they must overcome, and cooled by the genuine moments they experience side by side that bring them closer together. The tiny moments that serve to further develop their characters throughout the game, making them more empathetic to the player, but also to each other. Tiny quirks and personality traits that add a level of depth to The Last of Us that was unprecedented before its release. Ellie's love of comic books, and how Joel loved to drink coffee to the point where he still misses it all these years later. Understandable characteristics that not only brings the player closer to these characters, but also brings them closer together as well by using these character traits discovered over time to create empathetic people. Not characters, people. As a result Joel begins to see Ellie as a person as the story progresses, not only as "the cargo" they first picked up in the beginning. Likewise Ellie begins to see Joel more than a protector, but a father figure who genuinely cares for her in a way a father figure would / should. If anything their relationship is one of the most genuine in the game, aside from Tommy & Maria, because it is thrust upon by circumstance but they stay together by choice. Even the relationship between Marlene and Ellie seems a bit disingenuous, despite the fact she knew her mother and since Ellie was a baby, she still only wants to use her to make the vaccine without giving her a choice, without giving her the privilege of a few final moments. The relationship between Marlene and Ellie, while not being fully fleshed out within the story, seems to have taken the exact opposite route that it took with Joel and Ellie. Where Joel saw her as cargo at first, but then a sort of daughter-figure later on; Marlene saw her as a person at first because they did not meet post-apocalyptically, but upon discovering she was immune chooses to treat her as not much more than the cure for the disease that humanity is being afflicted by.

  35. i always felt 41:30 – 41:40 is kinda gamings lost in translation moment. what do you think they said? we'll never know. and i think the story is better that way.

  36. I just happened to stumble across this video and could not be happier about it. I’ve consumed hours of endless content about this game and like some of the other commenters have said, I thought I’d gotten everything out of it. Thank for making this. The way you broke down the structure and roles of every character was nothing short of fantastic. I hope you create another one of these for Part II. I’ll keep my eyes peeled for it. You’ve earned my sub bud.

  37. I disagree with you completely about Joel. I you dont have a child yourself then I could see how Joel desicion would be hard to understand. We dont know exactly what Joel was thinking, but Ellie obviously means more to him than everyone else in then world, as any good parent would. I think the ending shows that Joel has accepted his past and is moving on, which is why he feels comfortable talking about Sarah. Ellie didnt take Sarahs place, she helped Joel and Joel helped her in return. I think you should rethink your assessment of this game.

  38. To defend Joel's actions (though I'm sure the comments are full of that and I'm not denying that his reasoning was purely unhealthy and selfish) but the Fireflies are show to be dying, ineffective and frankly often idiotic. They have no way to spread this vaccine as most of humanity is already infected, violent bandits or living in military run quarantine zones the Fireflies have no access to. The Fireflies other outpost are all shown to have failed due to either irresponsibility or straight up stupidity. Not folks that I as a player could trust with humanity's future.

  39. Extremely good video, though I have something to add and a theory. First is the the doctor or scientists that came to the conclusion that operating on Ellie is desperate fuck ups. They are no such thing that knowing it would work as a cure especially since they most certainly have made no extensive testing on her, so at best it is a possible theory that only after they tried it they'll know if it works. And what is the imidiate rush? The infection has been active for about 21 years and they seem to be in a protected place and she is immune, why does she have to be put under knife the minute she arives? No, if you read the letter from Ellies mom and pay attention on the story you find out that Anna knew that she was going to die and I really think that she died sacrificing herself after finding out that she was immune by being bitten. So they tried the same thing,and since there is no cure it failed. Hopefully we'll find out in part 2, since part of Annas story seem to be in it. So I think that what Joel said was only a lied by him not having the facts, and if you look at it scientificaly every virus/sicknes/diesease that humans know of there are some that are immune. Take AIDS a little less than 1% of us humans are immune to one of the most dangerous viruses we know, that means that about 76 million ppl on earth is immune to it. There are reakky no mention of it but in the intro of the game we learn from a newspaper the that there have been an increasing wave of sicknesses where people have become aggressive lately, so I'm guessing that the ruin of the planet to what it is 20 years later didn't happen over night. So my guess is the there where extensive testing on finding out what disease it was and if there where a cure, and they didn't seem to find a cure. And the ones that tried I'm guessing where better equiped, had more help, where specialiced in the field (ok the dead doctor at the university was probably one of them) and generally better suited for the job. But all this is just my theory and guesses. Feel free to comment though.

  40. I didn’t like Last of Us. The switch between chapters and character development were extremely sporadic, where many characters completely switch personalities back and forth at the drop of a hat.

  41. I was surprised that you did not mention that Joel calls Ellie “baby girl” right after her fight with David. This for me was pivotal because that was Joel’s nickname for his daughter Sarah, and by extension, Joel’s acceptance of Ellie as his substitute daughter. It further clarifies the lenghts Joel goes to to save her life and made the end palpatable for me. One of the most surprising emotional gut punches TLOU threw me was that I was starting to think that I would like to have a daughter of my own – an emotion so powerful and surprising that it knocked me down for a bit. Had it not been for that phrase I would have been very unsatisfied by the ending of the game. I did not enjoy the role I was forced to play in the ending (as Joel) but at least it made sense.

    After having played the game three times and getting emotionally invested every time, I think that TLOU is a very good amalgam of dramatic, narrative and gameplay elements that would not cut it on their own. The story would not have made a very interesting or even good book, a movie would be average at best and for an action game the gameplay mechanics are mediocre. It is the sum of these average parts that lifts it to something great, despite its shortcomings, and made it the best game of its generation. But I don’t think that it warrants a literary analysis like the one you attempted here. There’s just not enough substance in the narrative aspect by itself. I didn’t hear anything new or particularly insightful in your video, like I was hoping for. But it was very well made and entertaining enough to watch in its entirety. So thanks for the video!

  42. You named it very well. When playing with Sarah, you learn that Joel will protect you, not only as an adult, but also as a father. And once I was playing with him, by traying to escape the crisis with the girl in his arms, I knew that I would have to do anything to save her as the father. And once she was gone, and Tes come in, and after her Ellie, that same protecting feeling have already been stablished. And I knew exacly what he would do.

  43. I'm a literature student and have been a videogame enthusiast since I was just a child. I'm currently doing a thesis study of videogames as a form of literature, having TLOU as my text. And this video seems like going to be a good source for me. You earned a sub. I'm going to make sure to properly cite you on my papers. :))

  44. I love your analysis even if I’m not completely in agreement. This is the type of narrative that fosters so many different outlooks. I think TLOU is ultimately about grief. How it can eat you up inside, literally destroy you, and what it makes you do. It isolated Bill; caused Henry to kill himself, and made Joel do everything to not lose Ellie like he lost Sarah.

  45. I disagree about Joel's decision being a betrayal to Ellie. Her greatest fear was being abandoned and Joel would have had to abandon her to save humanity.

  46. Just thought about this game’s story again today and decided to look for an analysis on the STORY itself and what makes it so heart wrenching and beyond neatly written.

    This was exactly what I was looking for and love the premise of your channel! Subbed

  47. David was a paedophile rapist who intended to keep her as a pet. The stakes were way higher than simple death which inevitably comes anyway…just after he does a few hundred times.

  48. The giraffe symbolizes seeing/perceiving the future, in the case of the last of us, a future where life carries on and flourishes with or without human interference.

  49. At 56:40 you said that the protagonist is weak. I think that is close. A more accurate description would be vulnerable. It might be a small distinction, but it is an important one.

  50. 41:50 Are you kidding? You had to defend a 14-year-old girl CRYING and seeking much needed comfort after being traumatized by a clearly established pedophile and cannibal who was pretty blatantly about to rape her in addition to strangling her??

    This just proves how overzealous feminists are, acting like girls just can NEVER seek comfort from a man or a father figure without being viewed as weak.

  51. The video was great!
    But I got one thing to point out, David not only was rying to kill Ellie, but is confirmid that he tried to sexualliy assault her on the end of the winter segment, at leat, that's what I interpreted the scene, and how many others interpreted as well.
    It just makes the scene even more sad and terryfing.

  52. Your analysis was wonderful but I wish you had gone into how David wanted to rape Ellie and keep her as a "pet", I think its very important to her character and is a very scary, real thing that a lot of young girls and women go through, minus the cage and cannabilism, usually.

  53. Dam Ive been looking for videos like this but a WHOLE channel like this is so much better, keep up the great content

  54. Fuck the greater good. If you take from the smallest minority (the individual) for the sake of the greater good, That "good" is tainted .

  55. 6 years on and I still don’t get why the ending of this game is controversial. This is the only natural ending the game could have had

  56. Thank you, thank you, I can't say this enough times. Finally an interpretation that I love.

    We shouldn't get into huge arguments about whether or not Ellie's death would have resulted in a vaccine, let's for the sake of the story assume that it does, and that the vaccine can be distributed. But the important thing here is that:

    1. Joel is in the end selfish, I have no doubt its partly for Ellie, but definitely for is own desire for his daughter as well. After 20 years, he just wants to return home with 'his daughter' and live a 'normal' life again.

    2. Joel is harmed greatly by the 'better good', so he has no intention to give another up for it. He does all he can to protect what he has left.

    3. This is gonna be the controversial one: I think that Ellie is not aware of Joel's lie. Their relationship has developed to a point where she trusts Joel, and nearly as a fatherly figure. She's never slow to call on bullshit… she does not here. I think that Ellie placed all the trust she that dared on believing that what Joel said was true.

    4. Survivor's guilt is big in this one, hence her story at the end. In her dream, she went into the cockpit to attempt to save the plane, she WANTED to save humanity. Of course, it was not her responsibility to do so. I find this a beautiful analogy overall. A plane with passengers but no pilots, and Ellie wanting to save the plane ——– A world with people but nobody truly in charge, and Ellie wanting to save it. Perhaps the only civilized society there is Tommy's hence why they go there in the end, as a way into a 'saved' society, which makes Joel's decision all the better. Lesson here: anything about dreams in a work of fiction is important, especially if the dream is implausible (Ellie was never on a plane, htf does she know what it looks like? ok, fine. She's seen pictures, yadadada, that's a bit of a stretch and it ruins the plot, and if so, there was no point of the entire exchange)

    5. Would Ellie have volunteered to sacrifice herself? I think so. That story she told about Riley at the end is significant in that: she is still waiting to die. She TRIES to save the plane. She pleads for Joel to swear to truth. Maybe this is survivors guilt regarding Riley, maybe this is survivor's guilt regarding humanity, I don't know, I don't care. In 10 or 20 years, she'll know the truth for sure, and I'm expecting this to be a BIG part of pt. 2. As with this story line however, it doesn't matter. All the story tells is of Ellie, who at the still naive age of 15, truly wants to save the world, but is saved and betrayed by Joel for his own selfish reasons.

    Oh also, if you are still reading, OMGOMG, thank you! And I just realized that Joel is building a relationship with Ellie "on the ruins of his father-daughter relation with Sarah" in the same way that Tommy, and now Joel is joining them, is building a society on the ruins of the old one. This hopeful society makes me think that the relation with Ellie will turn out just fine.

  57. Sam and Henry’s end fucked me up. God this is a good game.

    Edit: Also, the fact that Naughty Dog started out making games like Crash Bandicoot, to make games like TLOU and Uncharted is crazy. Such a tone shift in making games. Lol

  58. It's interesting coz as the player I didnt feel betrayed by joel at all, in the moment I was totally with them, nothing else mattered but saving ellie. Is he weak for it? Maybe, but i think that's what makes his characther feel so real.

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